De tendência a realidade: o retalho sustentável

De tendência a realidade: o retalho sustentável

A pegada ambiental do setor

No último ano assistimos à democratização do ecommerce. Isto permitiu às marcas e aos retalhistas aumentar exponencialmente o alcance dos seus produtos, trazendo aos consumidores um novo mundo de opções. Contudo, simultaneamente às inúmeras vantagens do comércio global, assistimos também a um agravamento do impacto ambiental das supply chains. De facto, as cadeias de abastecimento do retalho são responsáveis por uma pegada carbónica equivalente a 200 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Este impacto é também visível no dia-a-dia das cidades, onde o aumento do número de veículos que circulam para entregas provocou um aumento médio de 11 minutos no trânsito.

Face a estes valores preocupantes, a sustentabilidade tem vindo a ganhar importância para os negócios, não só do ponto de vista dos gestores, como também dos consumidores. Cerca de 6 em 10 consumidores estão dispostos a mudar os seus hábitos de compra para ajudar a reduzir o impacto ambiental. Isto não é apenas uma tendência das gerações Z e millenials, expandindo também aos boomers e à geração x. Adicionalmente, 70% destes consumidores estão dispostos a pagar um premium médio de 35% pela sustentabilidade dos produtos adquiridos.

Em reação a esta preferência dos consumidores por produtos com baixo impacto ambiental, são inúmeros os exemplos de empresas que adaptaram os seus processos de negócio para garantir que a sua pegada ambiental é positiva. A cadeia IKEA transformou a sua Black Friday de 2020 na Buy Back Friday, incentivando os consumidores a vender os seus movéis usados, dando-lhes uma nova vida e promovendo uma economia circular. Para além disso, este retalhista comprometeu-se com a utilização exclusiva de materiais renováveis e recicláveis e a redução da pegada de cada produto em 70% até 2030. Os retalhistas de moda também têm marcado uma forte presença nos esforços pela sustentabilidade. São exemplos disso a Levis que desenvolve, aplica e partilha técnicas para a poupança de água na produção de peças de vestuário, e a H&M que promove coleções com 50% de materiais recicláveis ou reutilizáveis.

Retalho Purpose-driven

As iniciativas levadas a cabo pelos diferentes retalhistas nos diversos setores estão em linha com a opção preferencial dos consumidores por retalhistas purpose-driven. Incentivados pelos consumidores, os negócios incluem na sua estratégia pilares de contribuição positiva não só para temas ambientais, mas também sociais e económicos. Os negócios ganham agora uma forte componente social ativista, com a capacidade de catapultar a mudança de comportamentos através da sua influência sobre os consumidores.

Apesar de todas as evidências, existe ainda um paradigma relacionado com custo e não com o benefício em torno das iniciativas de sustentabilidade. Este mindset advém de experiências anteriores com iniciativas semelhantes, onde o principal objetivo era o cumprimento de regulamentação, com âmbitos e impactos muito limitados e sem a medição e acompanhamento do ROI e outros indicadores chave. Adicionalmente, nas complexas cadeias de valor do retalho, onde fornecedores de matérias-primas, fabricantes, transportadores e retalhistas trabalham com objetivos distintos, a colaboração com vista a um bem comum apresenta desafios estruturais.

As iniciativas de sustentabilidade ganham agora um novo palco, longe do cumprimento da regulamentação, e com foco na valorização dos produtos e aumento da satisfação dos consumidores. Os retalhistas que encararem a sustentabilidade como um pilar estratégico central, assumirão a liderança na preferência dos consumidores e registarão ganhos substanciais de vendas e poupança de custos.

Onde podem encontrar as oportunidades?

A natureza das iniciativas a desenvolver abrange um grande leque de opções, podendo focar-se nos produtos e materiais constituintes, na estruturação da cadeia de abastecimento, na relação com fornecedores, nos serviços de pós-venda, ou ainda nos processos internos da organização. Para verdadeiramente construir iniciativas com impacto significativo, é necessário analisar a totalidade da supply chain.

O Overstocking é um dos principais problemas encontrados no retalho. Este excesso de stocks provoca um aumento do número de artigos desperdiçados por se tornarem obsoletos/sem condições de utilização ou pelas quebras causadas no manuseamento. Com a proliferação do retalho omnicanal, este problema agravou-se, já que os consumidores se tornaram menos permissivos à falta de stock ou a elevados tempos de entrega. A reação dos retalhistas a esta exigência passa muitas vezes pelo incremento indiferenciado dos stocks. Para abordar esta frente, os retalhistas devem:

  • Planear localmente o stock de artigos com elevada variabilidade de procura e, centralmente, os artigos com baixa variabilidade de procura. Isto permite os ganhos da centralização, sem comprometer a utilização de dados de procura real local de cada ponto de venda;
  • Melhorar os métodos de manipulação de mercadorias e treinar eficazmente as equipas, por forma a reduzir a ocorrência de quebras na movimentação e armazenamento;
  • Colaborar com fornecedores para garantir um planeamento de stocks e entregas integrado e flexível, que permite um ajuste dinâmico às alterações na procura;
  • Reavaliar os materiais utilizados em embalagens e consumíveis, tendo em vista materiais recicláveis e reutilizáveis.
  • O retalho omnicanal trouxe também um aumento significativo nas viagens realizadas para transporte e entrega dos produtos. Prevê-se um aumento de 36% no número de veículos de entrega nas 100 principais cidades do mundo até 2030 e um aumento de 32% nas emissões provocadas pelo transporte de encomendas. É necessário encontrar soluções que garantam a conveniência para o consumidor, sem comprometer a pegada carbónica:

  • Aproximar o inventário do consumidor final, através da desmultiplicação dos grandes centros logísticos em localizações capilares. Em paralelo, fazer uso da infraestrutura já disponível, com o reaproveitamento dos espaços e a otimização dos layouts;
  • Encorajar os clientes a recolher em vez de receber em casa. Isto é possível com localizações convenientes de recolha, serviço rápido, parcerias com pontos de recolha de terceiros e incentivos promocionais;
  • Otimizar rotas através da agregação de encomendas e optando por veículos ou combustíveis mais sustentáveis. A agregação de encomendas pode ser otimizada através de algoritmos de roteamento fiáveis, que se adaptem em tempo real ao mix de encomendas em carteira.
  • Os retalhistas podem ganhar a confiança dos consumidores se partilharem com transparência os seus esforços para a sustentabilidade dos produtos e operações. A jornada para a redução do impacto ambiental do retalho é feita por retalhistas e consumidores, lado-a-lado. A oferta de diferentes opções de serviços com trade-offs entre custos operacionais, conveniência e impacto ambiental, ajudará a educar o consumidor e a impulsionar a transição dos retalhistas. O sucesso da transformação sustentável requer ainda que a sustentabilidade faça parte da estratégia de médio-longo prazo da organização, e que seja contemplada em todos os nós da cadeia de valor.

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