O que está a acontecer no desporto em Portugal?

BY ANTóNIO COSTA, SENIOR PARTNER KAIZEN INSTITUTE WESTERN EUROPE - 2018-07-03

Os últimos meses têm sido fustigados por notícias de acusações, corrupção e violência no desporto português. O clima de instabilidade sentido no nosso país traz consequências diretas para o entretenimento e desporto, como também questões mais profundas ligadas aos valores do desporto e à segurança de atletas e adeptos. A tentativa de identificação das causas ou causadores destes episódios é um exercício complexo, realizado não só pelas entidades competentes, mas, como seria de esperar, exaustivamente também comentado pela opinião pública.

Estará também o Governo a ter um papel ativo na resolução dos problemas através das instituições que tutela? No Plano de Prevenção de Riscos de Gestão do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) uma das principais atribuições mencionadas passa por, e passo a citar, “propor e aplicar medidas preventivas e repressivas, no âmbito da ética no desporto, designadamente no combate à dopagem, à corrupção, à violência, ao racismo e à xenofobia no desporto, bem como na defesa da verdade, da lealdade e correção das competições e respetivos resultados”.

Afastando-me do objetivo de explorar a origem das causas destes mais recentes acontecimentos, acredito que um dos fatores influenciadores fundamentais para o sucesso de qualquer organização - desportiva ou não - reside num conceito basilar: na liderança. Demasiadas vezes esquecemos o papel que uma boa liderança pode assumir na condução de comportamentos, para a criação de uma cultura e forma de atuação próprias, que quando bem guiadas, levam ao sucesso e ao crescimento.

No Kaizen, definimos determinadas competências como fundamentais num líder:

· Conhecimento do trabalho: Mandar fazer sem saber fazer é um erro comum na liderança tradicional. É fundamental que o líder tenha conhecimento suficiente dos processos e ferramentas aplicados pela sua equipa, mesmo que não seja especialista nas atividades. Realizar visitas frequentes ao terreno com objetivos de gestão do trabalho permite maior conhecimento da realidade e uma atuação ativa no ponto de impacto, sempre que exista algum problema. Esta é a denominada liderança participativa.

· Conhecimento das suas responsabilidades: É fundamental que o líder tenha a plena consciência do peso das suas decisões e do impacto que provocam nas pessoas. Uma posição de poder absoluto não é saudável em nenhuma organização, pois a discussão das diferenças em equipa permite atitudes mais ponderadas no momento de decidir.

· Competências para ensinar: A aplicação de um método de ensino errado, gera erros e consumo adicional de recursos. Uma partilha de conhecimentos efetiva proporciona ao formando uma estrutura sólida de aprendizagem. No Kaizen, aplicamos o programa Training Within Industry (TWI) para o Desenvolvimento de Competências de Treino, estando este dividido em três fases fundamentais - 1) explicação teórica; 2) exemplificação prática; e, 3) learn-by-doing.

· Competências para melhorar: A criação de uma cultura sólida de Melhoria Contínua só é possível através de uma implementação top down. É na gestão que se inicia o processo de mudança, desdobrado posteriormente ao longo da estrutura organizacional. O líder tem que garantir a integração e o envolvimento de todos na análise, discussão e construção de soluções para desvios aos objetivos traçados. Desta forma, contribui para uma voz ativa de todas as pessoas, todos os dias. À medida que a maturidade das equipas evolui, também a autonomia na melhoria se torna cada vez mais evidente.

· Competências para liderar: Equipas motivadas podem ser até 50% mais produtivas. A liderança pela positiva assenta na premissa básica de não culpar nem julgar. Quando é desencadeado um erro, o líder deve incitar ao foco na solução e nunca na acusação ou procura do culpado. Esta é a melhor forma de gerir conflitos, criar empatia e resolver rapidamente e de forma eficaz os problemas do dia-a-dia.

Identificar todas estas características na liderança é, muitas vezes, difícil. Cabe às organizações identificar as valências e lacunas dos seus líderes, investindo desenvolvimento e crescimento de cada um, através de formação e do acompanhamento constante.

Junho é o mês de arranque do Mundial de Futebol e os ânimos continuam exaltados no panorama do desporto português. Depois da conquista do título europeu, as expetativas dos portugueses estão mais altas do que nunca e apesar dos recentes acontecimentos, os líderes desportivos têm a total responsabilidade de garantir a união, o alinhamento e o foco de todos os envolvidos, com o objetivo de chegar longe nesta competição. Acredito que equipas com excelentes resultados, são sempre alicerçadas por bons líderes.


 
 
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